extra virgem

Minimercado e Açougue

“Que filé.” — disse a mulher que aparecia no açougue nas tardes de chuva.

Miguel sorriu difícil:  “eu sugiro o patinho, dona, tá um preço bom.”

Ela jogou o seu calhamaço compacto de cabelos pesados para o lado bruscamente, apertou os lábios e corrigiu:  “não, meu filho, não. Eu disse ‘Que filé’. Ponto.” —  o olhou de cima a baixo.

Miguel não entendeu o que havia para se olhar de uma extremidade à outra do seu avental branco. Agora vinha a piscada, ele sabia. Os cílios  de um dos olhos constrangedores muito em breve desceriam em câmera lenta. Miguel se percebeu contraído, e esperou a piscada que viria. De novo. Porque era tarde de chuva.

Desse amargo segundo de análise, onde Miguel ouvia os sons do mundo como embaixo d’água, ele acordou num pulo que fez cair o patinho, das suas mãos para a mesa metálica; o sangue espirrou escuro, e agora tinha se passado mais que o tempo adequado para que Miguel desse a risadinha tranquilizante que essas situações pedem; o tempo em excesso causou na menina que segurava a mão da mulher uma gargalhada de tremer os ossos, enquanto franzia o nariz e apontava para a cara dele. Miguel sentiu o frio na espinha que costumava sentir com crianças que riem sério —  como se soubessem de algo que não sabemos.

E então soube ele próprio de algo que não sabia: que Camila seria sempre a menina ininteligível com quem ele andaria de mãos dadas naquela parte clara da cidade; Letícia morreria sendo sua estátua devota de olhos fundos e mudos nesse maldito minimercado; e a mulher aqui na frente, essa Teresa vil com pulseiras demais no pulso e sol demais na pele, esta não seria mais que um pedaço de gente, para o chuveiro dos fundos,  simplesmente porque era isso e exatamente isso que ela queria.

Miguel, diante da sua súbita epifania, decidiu mudar tudo; tomou fôlego e força e pronto, era agora, chega disso, quero bem mais que isso e bem menos também, é agora que eu acabo tudo com essa e depois resolvo o resto, e moeu o patinho e jogou o patinho dentro de um saco plástico e pesou o patinho e colou a etiqueta com o preço do patinho no saco do patinho e disse:

“Querias cem gramas, né? pode ser cento e vinte e um? Muito obrigado, volte sempre.”