enferrujado

Minimercado e Açougue

Letícia achou morno aquele jeito de Miguel sair correndo do trabalho. Então abaixou a cabeça e fingiu atender a cliente que tirava as compras do carrinho. Dedicou sua atenção ao saquinho de carne moída da moça, jogado sem piedade sobre o balcão. Cansada pela meia hora que passara embaixo de doze caixas de cuscuz, a carne parecia estar derretendo. Letícia disfarçou o olhar de reprovação que quase lançou para a mulher e voltou-se para Miguel. Ele seguia correndo, tentando sorrir para todo mundo. E Isso que para ele era difícil e necessário, para todo mundo parecia natural e excessivo.

Aquele chuveiro dos fundos do açougue era um dos privilégios mais convenientes do cotidiano de Miguel. No começo ele gostava do cheiro de sangue  — fazia lembrar da infância quando descobriu que sangue tinha gosto de ferro. Mas agora era bom poder sair com os cabelos molhados.

Correu de novo pro ônibus, seu segundo lar desde a fuga de casa e onde exercitava os meandros amortecedores de seu corpo e a habilidade de falar com estranhos. Foi assim que conheceu Letícia, e teve com ela a primeira e última conversa que viria a ter. Ela veio descabelada, tentando se equilibrar pelo corredor do ônibus, e sentou ao seu lado. Falou olhando pra frente, sonâmbula.

— Sou uma planta.

— Oi?

— Nada.

— Planta, planta?

— Nada, nada.

Letícia jamais saberia, mas foi seguindo ela que Miguel arrumou o emprego no açougue do mercado. Não por ela . Só porque sim. Só pelo “por que não?” daquela idéia. E sem ter de lidar com os porquês da morte como os legistas, ou com os porquês da vida como os professores de anatomia, Miguel podia simplesmente manejar mortos para viver.