primeiro movimento: pernas

Minimercado e Açougue

— Ai, Miguel, que susto!

— Desculpa…

— Ai, não faz mais isso, eu me assusto muito, ai!

— Tá.

No silêncio que veio depois, Miguel pensou no que então poderia agradar essa menina se até fechar os olhos dela por trás incomodava. Disse então tá, tchau, a gente se fala. O resto do dia da Camila se resumiria agora a pensar se ele teria ficado um pouco mais, caso ela não tivesse se assustado tanto, ou se tivesse se assustado com mais graça e feminilidade.

Miguel andou fácil pelo vento sem perceber que não tinha nenhuma dor no corpo e começou a tirar seus objetos metálicos da mochila. Naquela caixinha transparente dividida por um vidro blindado ele expôs cada detalhe importante do seu cotidiano. A guarda do banco, bocejando gostoso do outro lado, não se alterou: já tinha visto sua cota de objetos mirabolantes na caixinha transparente, como o lendário vibrador de 1995.

A porta circular foi girando com os passinhos curtos de Miguel, como que humilde, gradativamente sendo aceito. Mas “Não, Miguel, sinto muito; mais uma vez vou ter que recusar seu pedido de empréstimo: açougueiro não dá.”

Açougueiro não dava. Mas Miguel passou porta afora e não deixou de pegar o ônibus pra tão longe, e de cumprimentar a Letícia do caixa, e de calçar suas botas brancas de borracha. Nem deixou de rir baixinho consigo ao lembrar da bota igual à sua que ele viu em uma vitrine à venda por duzentos e cinqüenta e sete reais, em uma manequim de pernas impossíveis. E aqui estava a bota, barata e gotejada de sangue grosso de ruminantes anônimos.

Ainda lá na praça do banco da faculdade, Camila continuava sentada, analisando uma mulher que fumava, encostada no poste. A moça, de joelhos quebradiços e vestido rosa, esmagava o cigarro no chão com segurança e estabilidade. Botas finas envernizadas de alguma forma réptil permitiam isso, e Camila então sabia: é dessa bota que precisava. Custasse o que custasse.

No banco, a guarda robusta usava coturnos, e não nutria sentimento em relação a isso. Não até o momento em que chegava em casa; quando tirava as roupas, se olhava no espelho da bisavó e sorria para a leveza que as botas grossas, largas e pesadas inventavam nas suas fortes panturrilhas carnudas.

O bife, Miguel amacia no amaciador de bifes.