geleia

Minimercado e Açougue

Letícia havia passado os últimos quarenta e três minutos empilhando potes de vidro em uma parede de prateleiras. Colava em cada pote o código de barras e o preço e o colocava na prateleira e colava em cada pote o código de barras e o preço e o colocava na prateleira e colava em cada pote o código de barras e o preço e o colocava na prateleira. Foi entre um pote de vidro e outro pote de vidro, nesse meio-segundo de intervalo da profunda meditação, que ela ouviu a conversa dos dois meninos de preto — Letícia chegara a pensar que fossem assaltar o minimercado, mas agora percebia que só queriam a vodka mais barata e discutir a língua portuguesa.

— E as novas regras ortográficas, que…

— Que merda é essa?

— Que merda é essa.

— Só tenho uma coisa pra te dizer quanto a isso: geleia.

— Sim! caiu o acento agudo!

— Geleia, cara; GELEIA.

Letícia prestou especial atenção ao olhar dramático-quase-sorrindo que um lançou pro outro e voltou aos seus potes de vidro.

Do fundo do açougue Miguel assistiu a Letícia, esperando até que ela finalmente se sentasse no chão, tirasse dos olhos fundos os fios pretos de cabelo leve e inconsequente que cobriam o seu rosto sempre, encostasse a cabeça na parede e olhasse pra suas recém repletas prateleiras, em um suspiro de catarse doce. Por um minuto, no meio de tudo no mundo, ela olharia assombrada para uma parede cheia de erros suspensos no tempo, erros que não eram erros dias atrás, erros oficiais e decorrentes de muito investimento e todo o processo de fabricação envolvido na indústria de geleias, erros suaves de potes roliços e ingênuos ao se preocuparem apenas em avisar, desavisados, como se não houvesse algo de muito pior no próprio título do conteúdo: “sem gordura trans”.

Para Miguel, carne era apenas carne, sem alteração, sem drama. Não sabia que quando largasse o pedaço de picanha crua e olhasse só pra suas mãos, sanguíneas, a verdade seria outra. O vermelho escorreria cênico e algo cínico lhe diria no ouvido: trema.