sobre nomes

Minimercado e Açougue

O dono do minimercado sem nome achava desperdício dar nome a um lugar que a vizinhança acabaria chamando pelo nome do dono do minimercado, pois assim era sempre nesse país — ele não sabia ao certo se era assim nos outros. “Filho, vai ali no Seo Cristóvam e traz seis pãezinhos pra gente?”, ele imaginava. Então não desperdiçou criatividade. Mas o lugar  ficou conhecido como o minimercado sem nome, ou simplesmente ”          “.

A filha, o dono nomeou por lei. Olhou para a seção de laticínios e resolveu: Leitícia. A retirada do primeiro “i” foi cirurgia do escrivão do cartório, que o fez de cortesia e o dono do minimercado nunca percebeu.

Quando alcançou  idade para inventar, Letícia fez a mãe, uma Helena que não tinha tempo pra nada. Corria desajeitada, com cabelos bagunçados e loiros e secos e errados. Tropeçava nos cadarços de enfeite dos seus sapatos inapropriados e sentia todos olhando para a desproporção entre seus olhinhos impossíveis e sua boca monumental, mesmo que olhasse pra baixo com os cabelos lhe escondendo o rosto. Helena não sorria, corria. Achava seu nome muito leve, pois não é que ela quisesse ter aquele andar pesado, mas tinha. E estava acostumada com a certeza do impacto que a sua presença causava cada vez que entrava sala de aula, mas cansada do espanto que os homens soltavam ao perceber que ela os manejava com mais facilidade do que eles gostariam de imaginar que fosse.

O senhor que agora pede aspargos para Letícia não sabe que a mãe da menina é inventada, nem que o minimercado foi sem nome por escolha do dono, nem que Letícia teve nome dado de qualquer jeito, nem que ela se sente tão vaga que morre de sono. Mas ele coça tão forte os olhos que  passa a vê-la como um borrão de granulados, luminoso e amorfo. E insiste pelos aspargos, mas aspargos não há.

É no advento de pedidos como esse, de senhores como esse, por aspargos como esses, que Letícia sublima por completo — ficam o uniforme e o cheiro de naftalina.