da mulher que não esquece noticiários

Material Sintético

Ela não ouve mais o salto alto da vizinha de cima quando se afunda na banheira cheia d’água. É lugar comum dizer isso – mas só ouve seu coração. O lugar mais comum dos lugares. Ele que é maciço acaba falando mais alto, quando o resto está diluido nessa água. Pra levantar dali custa muita força. Como pesa a água.

A campainha acelera o processo. Pula, se enrola na toalha logo impregnada da água, coloca as havaianas escorregadias de água e atende a porta. Disfarça as cócegas desconfortáveis na nuca, por onde escorre um rio fino de água, inventando meandros entre os seus poros permeáveis.

É a pizza. O moço pegou chuva. Está cansado e molhado (tomara que não se gripe, pensa ela). A pizza está mais abrigada que ele, então demora pra desempacotar. Diz: e a enchente do Japão, hein? — Ele: Pois e o Japão… quanto tempo faz? Nem lembrava mais.

Silêncio.

Quer uma água? — Água não, deus me livre.

Ele vai embora. Ela passo a se secar. Com toalha e força de vontade. Usa o secador de cabelo pra secar bem. Mas quanto mais seca, mais quente fica, e começa a suar: água.
Pega a fatia de margherita e liga no noticiário, que há muito não noticia mais a enchente no leste. Noticia outras, que ela vai absorvendo.

Toma guaraná mas não adianta: lacrimeja água.