a descoberta da fotografia (2010)

Material Sintético

Houve o tempo em que tirar a foto de alguém era evento raro e importante. Quem falava, parava de falar; quem mastigava, engolia; alguns paravam até de respirar dentro das anáguas, dos espartilhos, dos coletes. Era um evento crucial e definitivo, esse de congelar o tempo. Parava-se diante do movimento preciso que estava prestes a acontecer: aquele objeto vai abrir, permitir que a luz ilumine o filme tão sensível, e depois vai se fechar até segunda ordem.

Já os nenéns, com foto ou sem foto, são criaturas de outra sorte. Aleatórios, não param de falar, nem de mastigar. Nenéns acontecem, fluidos e sem horário definido pra receber o sol. Desde que foram, sensíveis, dados à luz, até anos depois, nenéns têm muito o que enquadrar no seu foco e nem um segundo a esperar — embora sejam de nós aqueles que mais tempo têm pela frente.

Em 2010, pouco parava para ser fotografado. As pessoas de todas as idades mastigavam, faziam careta, e às vezes até escondiam-se da câmera, que levava um bolo descarado. Não tem problema: a foto ruim sai fácil do digital, não custa dinheiro nem tempo, e nem gasta o tecido da História — dele se apaga antes mesmo de pensar em fixar-se. No início do século 21 aprendeu-se, verdadeiramente, a tirar fotos terríveis. Pesquisas estimam que, em 2010, em quase todas as culturas tirava-se aproximadamente 453 fotos terríveis a cada evento social imemorável.

Foi num inverno desse mesmo 2010, entretanto, que Benjamin, sujeito de 5 meses de vida, daquela classe dos nenéns, que não param, e dos mesmos humanos inquietos do início do século 21, fez o impensável. Ele, que não sabia ainda o que era luz nem câmera (só sabia ação), e que estava mais longe ainda de saber o que era passado e futuro, História e Memória, percebeu, na hora do clic, que seu pai estava parando o tempo.

À sua volta todos se mexiam, riam, pediam mais uma. Mas Benjamin, nesse dia desse inverno, ficou parado. Como seus antepassados ficariam. Ele que antes mastigava, agora engoliu. Se um segundo antes falava suas palavras coloridas, agora parou para ver a luz passar pela lente.

E arregalou os olhos diante do milagre.