corredor (2)

Minimercado e Açougue

Camila estudava ciências contábeis com obstinação equina e vinha de uma dinastia de leitores de dicionário. Hoje aprendera uma nova palavra e entrava no açougue decidida a usá-la.

Pegou Miguel pela mão com pressa de agora ou nunca. Puxou o açougueiro até o ponto de ônibus, correndo, trotando, pararam. Esperaram por 12 minutos, ela batendo freneticamente suas solas de ferro no chão. Quando o ônibus chegou, Camila puxou escada a cima seu próprio corpo e o do Miguel, com força trapezista de quem tem certeza de alguma coisa. Miguel nao fez perguntas, porque o óbvio seria fazê-las.

—Viu? — Inaugurou Camila com a voz tremida pelo ônibus que vai se despedaçando na velocidade. E disse o que tinha vindo dizer: — Tu és inverossímil.
Ao dizer isso, olhou para ele com olhar de ter descoberto a resposta para tudo, e que agora era só resolverem esse pequeno problema de narrativa e construção de personagem que poderiam ser felizes para sempre.

Pegou na outra mão dele, apressada para que descessem correndo, correndo, no terminal. Esperaram. 17 minutos. E vento encanado. De dentro do próximo ônibus, Miguel finalmente reconheceu o prédio Manchester Park, o Princeton, o Liberty Park, a Padaria Super Pão. Que agora tinha subtítulo pontuado: “padaria. confeitaria. cafeteria.” Miguel estava chegando no bairro do qual fugira, e que já tinha mudado e desmudado de água pra gin e tônica pra disk entulhos e de volta. Antes de aprender a andar, foi essa rua que ele aprendeu ser o Mundo, e ser o Brasil, assim que lhe ensinaram que era brasileiro. Aqueles ali na calçada eram os au-aus. Que as moças pintavam de rosa e verde-limão. Lá na frente, o meio-fio de 10 centímetros do qual tinha caído e quebrado a perna. Depois disso fizeram uma ciclovia, agora  era um canteiro de flores e amanhã seriam 7 lojas de 1,99. Olhando em volta a terra que o gerara, Miguel então fez que sim, concordando com a descoberta de Camila.

— Faz sentido.

Botou na mão dela o pacote de biscoitos Bela Vista que vinha carregando durante todo o trajeto e entrou no ônibus que inacreditavelmente parou ali no instante em que precisava. Este ônibus nunca chegou a terminal nenhum.

Camila suspira com certo alívio. É mais fácil que ele simplesmente não exista, mesmo. Enquando mastiga, lê no rótulo que os Biscoitos Bela Vista são distribuídos em Florianópolis, República de Eldorado, Oz, Havana e Macondo. Lê a data de validade: imperecível.