uma cerimônia extinta

Material Sintético

Levantou-se do meio-fio, agarrou a própria cintura com força, arranhando a costura do vestido, e olhou fumegante para o horizonte que em seus olhos se mostrava turvo.

O cronômetro em frente ao terminal de ônibus contava dez segundos para que os pedestres começassem a atravessar a rua na direção da praça, com a fúria de uma manada de antílopes indo pagar contas. Ela tinha 10 segundos para responder, antes que a massa humana os atropelasse.

A fonte da praça central fervia ao seu semblante enevoado. Ela contou até três, voltou-se para o seu amado inquisidor com olhos molhados de gana e um corte recém-mordido de súbita certeza no lábio inferior, esbarrou em um passante suado e sem camisa que já atravessava a rua antes que o sinal permitisse e disse, rouca de segurança: tá bom, eu aceito. Naquele instante, ela sentia que o mundo inteiro sabia do que acontecia, anunciava aos cantos do mundo e explodia em surpresa: uma menina lá na América do Sul vai casar.

Não sabia ela que de fato a Imprensa evoluira de tal forma que no instante em que ela dizia tá bom, eu aceito, as manchetes já se formavam. Os leitores, que também evoluiram, já leram a manchete cinco minutos depois de ela dizer tá bom, eu aceito, e os padres do mundo começam agora a desempoeirar os sermões de casamento de seus antecessores antigos, e mais de um já manda sua melhor batina para ser lavada a seco.

O clima também foi otimizado: na semana seguinte já é inverno; e neva. E sobre a tela branca do horizonte a batalha entre padres de várias nacionalidades será sangrenta, naquela mesma praça central de Florianópolis, ao decidirem quem conduzirá a cerimônia extinta há quase um século.