santuário e outros demônios

Minimercado e Açougue

O Miguel-criança costuma morder ferozmente a lisura salgada das pipocas não-estouradas, e depois cada grão de sal, ao ver a mãe cigana do Quasimodo correr com o neném no colo fugindo do trote pesado do cavalo que a persegue pelas ruelas de longe, até que grita a alma às portas da igreja pedindo “santuário”. Toda vez que isso acontece, o Miguel se sente filho do homem que faz desenhos animados para crianças roerem pipocas até as gengivas.

De volta ao Brasil, o Miguel-criança pediu um trenzinho e ganhou um carro, e por isso jamais perdoará seu pai. O trem do vizinho quase não descarrilha, e anda bonito e por muito tempo com um empurrão. Os carrinhos não têm rua direito, e tem gente que gosta, mas o Miguel, não. E não é menos menino por causa disso. A mãe que disse. Não é, não é, não é. Se não vão mais falar com ele por um milhão vezes trezentos mil e quarenta quinhentos de bilhões de anos, ele não fala por um milhão de mil bilhões e cinquenta quinhentos vezes…infinito.

Agora o Miguel-gente-grande é encarado pelo Mickey da camiseta do menino à sua frente, enquanto  sente a tranquilidade do medalhão de filé mignon através das luvas plásticas. De repente se revira dentro dele uma paz inquietante por estar ali e agora, e quando diz tchau, volte sempre, e o dono do minimercado diz acho que por hoje é isso, Miguel, vou fechar, o Miguel diz deixa que eu fecho, e não fecha: vai ficando.

Primeiro só no açougue, com as ossadas que vão dormir ali sozinhas. Rápidos quarenta minutos depois uma brisa das que surgem em locais fechados balança os bovinos. O Miguel então passa para o corredor em frente, e assiste ao freezer dos leites de saquinho por pouco não vencidos e ainda esperançosos pelo dia seguinte, em um tremer constante da brisa das que vêm da tomada.

Chegando ao balcão das cestas vazias saudosas de pão, encontra no escuro a bagunçada franja da Letícia. E não vê, por trás do cabelo, os olhos que jogam um companheirismo violento na sua direção — agora ela não é a única.

Inexistentes 8 horas depois, levantam o portão e dão início ao dia daquela rua.