humanos num aquário

Minimercado e Açougue

Helena, a mãe inventada de Letícia, achava que filho dela precisava de três coisas — ela costumava achar as coisas em itens, porque era professora: 1) Reparar em eventos como o solavanco da troca de marchas do ônibus ou as cócegas nos dentes ao fazer xixi. 2) Tentar traduzir qualquer coisa dessas que são do mundo, seja em cor, traço, número, nota, gesto ou no mínimo palavra, vai. 3) Saber que se conseguir isso, já valeu a pena.

A Letícia acordou e tentou em vão prender a franja preta e lisa que vinha passando a vida inteira em estado de quase alcançar atrás da orelha. Se olhou no espelho, do banheiro de cerâmicas e plásticos cor de caramelo, por tantos minutos que já não entendia mais aquele rosto como o seu. Sentiu vertigem familiar.

— Leitícia!

O pai queria entrar. Ela podia vê-lo através da porta de madeira, até através do azulejo verde musgo com desenho de planta não-identificada. Sabia exatamente com que cara e camiseta ele acordava.

Mas a Letícia naquele dia ia dar um jeito de tirar de dentro da cabeça reclusa alguma tradução de mundo, por Helena. Voltou a olhar pro o espelho, sussurrando:

— Ia, sim.

Ao longo do expediente passaram no seu balcão 9 caixas daquele sucrilho da promoção do dia, olhos nos olhos do elefante marrom mergulhado no leite. Vendeu também 6 calendários de Jesus Cristo com tulipas e frases salva-vidas, 32 limões coloridos, 7 vidros de mel já cristalizado e espantosos 5 gengibres feios e mágicos que nunca mais haviam sido comprados, desde a última grande e glamorosa Epidemia.

Agora o ar voltara a ser grosso. A Letícia via como ele de novo existia, como um mar que junta as pessoas. Via como o medo das pessoas de se juntar às pessoas desvelava esse mar, e ela achava bonito. Mas não sem disfarçar, dando de presente um olhar de falsa cumplicidade pra mulher que pagava suas compras com dinheiro enquanto besuntava seus dois filhos de gel antisséptico a escorrer pelos cílios e narinas.

Na volta do trabalho, pegou o ônibus com o Miguel e suportou a visão daquela bala sete-belo desembrulhada que se aconchegava entre o banco e a parede. Aproveitou que o ônibus gritava e ela não tinha nenhum outro som de mundo pra escutar, e então podia falar.

Quando passavam pela esquina azul, apontou pro enquadramento da janela e pensou em voz alta pra ele:

— Olha ali; humanos num aquário.

nao