deslocamento

Minimercado e Açougue

Ela vinha bamba lá da esquina até o minimercado com o vento ora contra, ora a favor. Assim ziguezagueava de dar pena. De dentro do minimercado, Miguel e Letícia aguardavam sem expressão a primeira freguesa do dia.

Conseguiu chegar à entrada, com os poros duros do frio e as pernas duras da  intencional falta de carboidratos; os cabelos duros da água oxigenada e o semblante de quem atravessou um terço de mundo em menos de 12 horas. Apenas para descobrir que o Brasil tem, sim, inverno, e que minimercado não tem porta.

Como havia andado cinco quadras esperando portas que bufam calor amendoado a tocar sininhos, ficou longos minutos estupefata na entrada larga do minimercado. Quando ela própria bufou excuse me e saiu, Miguel e Letícia nem chegaram a se entreolhar — Os fregueses mais assíduos eram os seres desnorteados às seis da manhã.

De volta ao quarto do hotel, depois do primeiro banho no hemisfério sul, Carmen resolveu se aconchegar na calmaria da lembrança do professor de geografia. Apaixonante e deportado vinte anos atrás, por ele Carmen tinha agora atravessado Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio. Viera procurá-lo sem chance nenhuma nesse gélido país tropical.

Resolveu também ignorar que um homem de inércia mórbida comia pipoca Bilu ao assistí-la da janela do prédio em frente.

A cinco quadras dali Miguel ignorava tudo, cortando corações de galinha gelada.