trilha

Minimercado e Açougue

A fita cassete passou o dia fugindo do olhar da Letícia. Entre cada troco e sorriso de boa tarde ela olhava pra fita e a fita ainda estava ali, no mesmo cantinho do balcão em que o Miguel a tinha colocado sem explicação nenhuma. Naquele cantinho a fita continuava sem dar explicação nenhuma, por mais que a Letícia olhasse. Olhava com carinho e ela não dava explicação; olhava de repente, no susto, e ela também não dava explicação. E não dava explicação pra Letícia, aquela que não falava com ninguém por preferir os sons originais da sua vida; a única que dava tanta atenção ao que objetos tinham a dizer que silenciava, à espera do mínimo estalo.

Chegando em casa tirou de cima do armário uma caixa empoeirada que a fez espirrar e conseguiu achar um toca-fitas, que também a fez espirrar.

O cabelo preto bagunçado do dia, o nariz vermelho da rinite, a pele quente e fria e lustrosa, o olhar calmo de quem se assiste de longe. O play: o som das cigarras. De vez em quando algum carro. Um vento nas folhas, uma histeria de insetos encalorados, o silenciamento pela chuva. Hora a hora a Letícia ouviu a madrugada de insônia do Miguel.

E não se importou em estar sobrepondo a trilha sonora dele na sua.