homem ao mar

Minimercado e Açougue

Quando a Letícia mais uma vez não disse nada, como não dizia nunca a ninguém, o açougueiro Miguel se sentou pesado no banco da beira da lagoa, onde logo chegou uma sonolenta senhora de cabelos arredondados. Sua cabeça tombava pra frente e ela entre-acordava em um susto que a fazia voltar para trás e pegar no sono de novo. Cada vez que isso acontecia o Miguel sentia um incontrolável desejo de segurar aquela cabeça, encostá-la no ombro, ajeitar as suas ondas prateadas. Queria contato com o entregue. Não pra se sentir forte por contraste, mas pra se coincidir, e não saber quem apóia quem. Se lhe pedissem pra colocar em palavras ele diria tô cansado de carne fria.

Naquela noite não dormiu. Acionou o despertador do celular, fechou os olhos e passou oito horas com eles arregalados por baixo das pálpebras.  Diante do tédio sua mente se viu obrigada a interagir consigo mesma, buscando recursos atrativos e distraídos em todos os seus cantos, acima e abaixo d’água.

Às seis da manhã, com a musiquinha irritante que não conseguia trocar, Miguel acordou entendendo; e com o brilho verde de quem sabe o que fazer. Entrou ágil pela porta do minimercado e colocou em cima do balcão da Letícia uma fita cassete.