dos maracujás

Minimercado e Açougue

O cheiro amarelo de maracujá invadia o quarto, a casa, a quadra, o país, o mundo. Naquele instante, no quarto nascia Miguel e o mundo pertencia a sua mãe. E o mundo era de oceanos de suor e vulcões de dilatação e vendavais de respiração segundo as técnicas daquele livrinho de yoga da seção de auto-ajuda.

A casa continha um pai católico-praticante praticando, a quadra aguardava com a ansiedade que é de praxe para a boa vizinhança e o país emanava um otimismo verossímil de fim de ditadura.

Embebidos na neblina tão amarela quanto o cheiro do ar, os três quilos e duzentos gramas vieram à luz com um choro meio-amargo e tendência à hipocondria. Esta se concretizaria. E, sem que Miguel jamais pudesse saber, seus olhos seguiriam enxergando a realidade em tom mais amarelado que as outras pessoas.