com limão

Minimercado e Açougue

Desde o caso dos russos e dos porcos o minimercado e açougue passou a ter nova luz e nova sombra.

A idéia de que as peças do açougue podiam ser atacadas a qualquer momento enchia Miguel de um sentimento de missão a cumprir. Dava pra ver o brilho de honra nos seus olhos por trás do balcão, por trás do vidro, por trás da cortina de plástico, por trás do avental. Mas ele escondia isso de si mesmo, em um canto específico e empoeirado do cinza massudo da sua cabeça. Porque tinha ido trabalhar ali para fugir do que chamava de “fixação por sentido nas ações” que o atormentara no passado. Estava ali para fazer, simplesmente.

Já para Letícia, o caso dos russos e dos porcos apenas adicionou uma dose de medo ao seu arsenal de temores que a protegiam como barricadas violentas. Mas foi uma dose em particular: a dose que lhe faltava para que se afundasse por completo na sua cadeira de trás do caixa. Inerte, dura, azul. Todas as manhãs sua carne integrava-se ao alumínio dessa cadeira, se imiscuindo resiliente  sobre suas arestas com atitude de concreto armado de pudores.

Os fregueses passaram a inventar recursos para chamá-la. A maioria deixava moedas caírem do alto sobre o balcão, e ela se mexia metálica. Alguns diziam “psiu!”. E uma senhora frequentadora assídua tomava a liberdade de aproveitar o momento para aliviar suas tensões e anseios domésticos, subindo o tom de voz uma oitava acima: “ôssualoucarranquessetraseirodaíquenemgenteoueutestraçalhoscornos.”

Em uma dessas ocasiões, por acaso um gélido doze de junho, ao se desinstalar bruscamente da cadeira, Letícia quebrou uma costela.

Miguel também, porque o cliente insistiu que só queria meia.