voz do Brasil

Material Sintético

O Guarani corre. Reconhece cada raiz da trilha na sola dos pés, cada surpresa urticante no roçar das folhas, cada orvalho sorrateiro que faz a pele brilhar; e provoca ventania com a velocidade que seu corpo sozinho constrói, ouvindo a cachoeira, as cigarras, o seu telefone celular. Pára. Atende. Com velocidade construída por infinitos corpos, a palavra chega ao outro lado e ele pratica a tradição oral de seus ancestrais.

No Velho Mundo, dezenove de março, o quinto violinista de uma família de violinistas está atrasado para o ensaio e corre o mais rápido que suas pernas estridentes permitem do metrô até a escada rolante. Desacelera. Ele e a massa de estranhos apressados agora se afunilam e embaralham ao subir no primeiro degrau, de súbito se entregando à óbvia lentidão daquela maravilha contemporânea:  foi sempre assim.

Em Campinas, a menina que fala sem parar na escola e no mundo chega em casa falando, liga saltitante e orgulhosa o rádio que a mãe chama de obsoleto, o que para a menina só vem a enaltecer o objeto, sendo ele digno de semelhante adjetivo, tão simpático, plissadinho e complicado, e sem querer ouve a música de introdução da Voz do Brasil. Cala-se. Seu silêncio, recém-inventado e parido no susto, faz agora sentido.