pequenos prazeres

Minimercado e Açougue

— Não acredito nessa história. Tá na cara que é clichê.

— Aí é que está, meu senhor. Concordo que até seria clichê, mas estamos no Brasil. Aqui não tem disso.

— Quer dizer então que… dois indivíduos russos entraram aqui no minimercado…

— Falando russo… — Miguel interrompeu em voz baixa.

— Falando russo. E tu disseste que os elementos usavam… ternos pretos?

— Ternos pretos. E entraram com pés-de-cabra.

— Sim, sim, eu já entendi. Pés-de-cabra. E simplesmente abriram fogo?

— A queima-roupa. Roupa não havia, mas, é; isso: simplesmente.

O policial bufou após um breve silêncio: — Mas eu já vi essa merda dessa cena trezentas milhões de vezes. Não acredito. Só falta me dizeres que tinha um saxofone tocando no fundo — se inclinou para trás, embutindo o queixo no pescoço largo.

— Olha. Eu não vou te dizer que não tinha, porque tinha. Mas isso não vem ao caso…

— Ah, mas então tá resolvido: é clichê. Não levo clichê a sério. Não faço boletim de ocorrência pra clichê — pigarreou profundamente e olhou para a porta de saída.

— Seu delegado. É clichê nos Estados Unidos, por causa da Guerra Fria. Não tem nada a ver com a gente. Eu tenho certeza que posso dar um jeito de explicar o saxofone…

Essa autoridade não se tratava exatamente de um delegado. Mas aceitou o nome. Ergueu de volta o queixo, em um momento raro de semblante imponente, e depois riu para o chão, até que seus olhos encontraram o que Miguel temia que encontrassem: o telefone do balcão do minimercado. Um telefone vermelho dos anos oitenta.

Miguel soltou um riso tímido e o policial o olhou com o canto do olho, olho este que sorria como olho de quem encontra mais uma prova para o que afirma: — E, por acaso, os tais russos ligaram-daquele-telefone-vermelho-por-onde-receberam-detalhes-da-execução-que-um-misterioso-superior-deles-ordenou? — e apontou um dedo em gesto brusco, fixo no rosto de Miguel.

Miguel respondeu em sobressalto defensivo que o policial não percebeu: —  Não! Olha; olha as vítimas. Ouve o que eu estou te dizendo… eram russos vegetarianos.

O policial coçou a orelha, apoiou uma das mãos no quadril, deu a tossida costumeira que acreditava encobrir seus titubeares inseguros e olhou para os dois porcos inteiros estarrados no chão do açougue. Era um abstrato suíno. Já no fim da tarde,  os porcos redondos pareciam colinas amarelo-queimado emaranhadas em espessos rabiscos vermelho-sangue e um ou outro traço azul-gangrena.

— Vegetarianos? — levantou uma das sobrancelhas.

— Sim, sim — improvisou Miguel, vieram em protesto e deixaram a carne de porco inadequada para comercialização.

— Hm. Essa eu nunca vi. Pode até ser — dirigiu os olhos agora para a parte de baixo do balcão, onde jazia uma coxinha de anteontem. Miguel rapidamente colocou-a em um guardanapo de bar, liso e nada absorvente, e a trouxe até o policial. Este então pegou o cilindro plástico de maionese, fincou fundo o bico na parte mais gorda da coxinha e espremeu o tubo até que a coxinha se demonstrasse consideravelmente inflada e deu uma mordida repleta de segurança e prazer.

Falou de boca cheia, absolutamente cheia, de forma tão natural que beirava a graciosidade: — Vou registrar a ocorrência. Mas tens até amanhã para me explicar o saxofone e o telefone vermelho. Ah, e para os ternos pretos clássicos e os pés-de-cabra óbvios vou fazer vista grossa, hein?

Tirou uma foto dos porcos.

Miguel suspirou aliviado. Não teria que pagar pelo prejuízo do próprio bolso. Mas levaria ao túmulo a parte em que os russos comentavam, em inglês (porque às vezes, sem motivo aparente, eles falavam inglês em vez de russo, mesmo entre si), que testariam as balas de revólver nos porcos porque essa era a carne mais parecida com a humana. Aquele policial sabia identificar clichê. Pelo menos os importados.