etiqueta

Minimercado e Açougue

No ônibus senta uma mulher de cabelos muito limpos, óculos escuros muito grandes e uma tatuagem que comenta muito casualmente: Jesus Cristo. Miguel, sentado atrás dela, acelera a respiração com o corpo estático.

Letícia corre pela rua e seu coração acelera em ritmo de vida-ou-morte, já que ele não sabe o motivo trivial da corrida repentina e forçada. Assim ela corre; corre na calçada da igreja “Jesus Cristo é O Senhor” e do restaurante Senhor Salsicha.

Miguel se acomoda mil e uma vezes no seu assento e não encontra paz. A mulher à sua frente o deixa inquieto: há uma etiqueta grande e grossa e sintética e da Hello Kitty pulando para fora da sua blusa que ele sente pinicar o próprio pescoço, mas sabe que não pode interferir e colocá-la para dentro — seria malinterpretado, é tudo muito complicado, viver no mundo é muito complicado, merda, pensa ele.

Letícia e seu coração alcançam o ponto de ônibus a tempo. Ao sentar no banco de gestante sem ser gestante, para recuperar o fôlego, sente enfim o calor que estava suspenso durante a corrida esperando que ela parasse para aflorar e lhe latejar as têmporas. É só quando olha para além da catraca e encontra um familiar par de olhos que ela relaxa a testa que só agora percebe que estava franzida. Sorri frio, seco, simples, leve.

Miguel recebe o olhar quente e molhado e denso e doce e  sorri de volta não só esquecendo da etiqueta como deixando que lhe passe despercebido o fato de que está chovendo, todas as janelas estão fechadas e o ar condensado de cada pulmão desconhecido e potencialmente moribundo escorre pelos vidros.

Houve um tempo em que ele abriria a saída de emergência e tomaria dezesseis banhos consecutivos. Agora, não,  graças a Deus — e suas bactérias. Seu corpo precisa de ar, mas a cabeça resolveu que é exagero, que deve se controlar, que é complicado, que  esse mundo é complicado.

Letícia senta-se ao lado da mulher da tatuagem e fala “Oi, com licença? Oi. Tua etiqueta tá pra fora”, enquanto se inclina em câmera lenta por cima do Miguel

e abre uma janela.

Miguel sempre foi simpatizante das ambiguidades. Mas foi nesse instante nu e óbvio que ele se comoveu.

Estão os dois atrasados para o trabalho, mas a cadeira carnívora da Letícia e o avental alvejado do Miguel esperam.