minha vó Etna sempre dizia

Material Sintético

Minha vó Etna sempre dizia: querido, é preciso parar com esse bê-bê-bê. Depois, para quem perguntasse, ela explicava que quando era jovem passava na televisão um programa em que pessoas aleatórias ficavam presas em uma casa e só falavam das suas vidas, em mínimos detalhes dos cotidianos mais vazios que já foram criados entre os cotidianos criados. Segundo ela, nós da vida real muitas vezes caíamos nesse vício gratuitamente. Minha vó acreditava que o único jeito de uma pessoa se libertar de mesquinharias ensimesmadas era escalando um vulcão. Em cima de um vulcão, segundo ela, não havia chance nenhuma de alguém pensar em suas pequenisses exageradas.

Houve sempre na família polêmica a respeito do fato de vó Etna ter adquirido, sem maiores explicações, lá pelo início do século XXI, um milhão de reais. O que também chocava alguns de meus tios era o suposto aparecimento de Dona Etna em uma revista “masculina”, fato que ela sempre negou. A família tratava disso com fissura corrosiva, em detalhes angustiados e protestos fervorosos, por cima do penne à carbonara do almoço (e o que sobrasse dele no jantar).

Quando completei vinte e três anos fui para a Itália, peguei um trem azul, tomei um copo de vinho sorrateiramente tânico, comi uma pizza apimentada demais e escalei do frio para o quente durante quatro horas. O sol na cabeça, ela na cabeça. E as vozes dos tios e da dúvida tão bem sedimentada em mim — o que a vó teria ou não feito na juventude.  Chegando ao topo, concordei com a matriarca: tanto faz.

Ainda hoje, quando minha filha lava o rosto com sabonete de enxofre, lembro das cinzas de Etna, que volta e meia viram lava, erodindo a pó meus desnecessários dobramentos modernos.