plano piloto

Material Sintético

Ao meio-dia, na capital de um país gigante, o menino que se chamava Carlos (e Carlos pra ele não era nome de menino) viu três coisas de dentro do carro fresco do seu pai. Viu uma senhora triste sorrir pra uma foto alegre, viu uma mãe grande lamber o sorvete do filho de colo para que não escorresse no calor seco, e viu um caminhão de lixo. O menino que se chamava Carlos viu no meio do lixo do caminhão de lixo um homem de uniforme que fuçou, fuçou, achou no lixo uma revista Istoé e leu no engarrafamento.

A noiva do gari era noiva do gari há sete anos e dez meses. Não ligava para os comentários de que fosse muito tempo pra se ficar sendo noiva, achava bonito ser noiva. Ao fim da tarde, o noivo passava na casa dela e a abraçava. Abraçava porque não podia só dar um beijo: beijava o beijo menor que fosse e ela caía em seus braços. Ele ora ria, ora se irritava. Ela sempre explicava: “Não tenho culpa; amoleço.”

A noite apagou as coisas e outras se acenderam no lugar daquelas.