a primeira e última incerteza do agente Robert

Material Sintético

Robert é um agente do FBI. Fez tudo certo — faculdade de Direito, casamento cristão, corrida matinal, ovos com bacon, banho tomado, chegada às 9h em ponto no trabalho. Sempre obedeceu, conseguiu um bom emprego, subiu na vida. Mas neste dia vive um impasse. Desde 1936, Robert é seguro de si, bem treinado, até orgulhoso. Nunca se imaginou nessa situação. Não era pra ser assim — fez tudo certo… Foi culpa do Hoover. Ele é detalhista, mandou Robert ler e analisar cada palavrinha que o mais novo suspeito de antimericanismo escrevera.

No começo de cada investigação, Robert costuma comprar um novo lápis, apontar, sentir o cheiro. Então coloca papel na máquina de escrever, preenche o cabeçalho com o seu codenome: 453. Acende um cigarro, fica admirando o papel em branco com seu código de agente secreto, até o cigarro apagar. Com muita preguiça começa a ler o material que lhe entregam. Livros, traduções, peças de teatro, relatórios, fichas de interrogatórios, documentos de imigração. Tudo pra ver quem é comunista e quem não é. As palavras não lhe dizem quase nada além disso – é ou não é. Toma um café. E aí começa o ciclo diário: lê, transcreve, escreve; lê, transcreve, escreve. Frio. Um representante frio do interesse americano. Até hoje, as palavras não tocavam nem uma mísera fibra da sua existência. Até que seus olhos encontram estas:

Os proletários constroem a máquina da guerra
por pobre remuneração
para que possam matar com ela
muitos filhos de mães proletárias

Que soco no peito é esse que Robert sente? Se comover com coisa que fala de “proletário”? Robert não foi criado pra compreender as palavras de quem fala “proletário”. Que espécie de bruxo é esse tal de Brecht? De repente Robert se sente exposto. Será que alguém percebeu o que ele sentiu ao ler o poema? Será que ele vai conseguir ser frio e imparcial no relatório? O agente percebe que está tenso, inclinando para trás na cadeira. Se analisa como analisaria um suspeito. Nota que seus braços estão arrepiados. Sente calor e frio ao mesmo tempo. Não consegue desfazer o nó que Brecht atou na sua cabeça: maldita contradição essa guerra.

Chegando em casa, faz tudo direitinho. Toma banho, come bife, não rejeita o espinafre, escova dente, dá boa noite, mas não dorme. É o momento mais intenso da vida de Robert como agente do FBI e, suspeita ele, como americano. Por 24hs, ele não saberá como é possível seguir vivendo no seu mundo como ele é, e ainda por cima lutar pra que siga assim sendo. Passará o dia seguinte suando, palpitando, vivo como nunca, por sentir a coceira de uma incerteza visceral, e com um intermitente frio na espinha a cada vez que percebe que um outro agente olha pra ele: será que percebeu a minha dúvida?

No fim do dia, já vai ter passado. E naquela noite Robert dormirá com um sorriso. Como se tivesse sido tudo um sonho. As melhores 24h da sua vida.