minha profissão é mais importante que a tua

Material Sintético

Dr. Aroldo está no seu bar preferido. É dia de improviso. É um bar legal, com gente de todo canto. Às vezes dá samba, às vezes dá choro, às vezes dá rock, às vezes dá jazz. Hoje veio gente com clarinete, violão, flauta, sax, e até uma menina com um violoncelo, que está agora usando como contra-baixo. O copo de cerveja de Aroldo escorre por fora em gotas condensadas pelo som denso. Ele olha em volta e vê todo mundo tão atento à mistura crocante que os músicos estão descobrindo, que dá pra ver no ar como as ondas sonoras acariciam os tímpanos e fazem todo mundo levitar pra longe das suas agonias de existir. “A humanidade é mesmo engraçada”, pensa Aroldo – “tão absurda, mas volta e meia faz uma coisa tão bonita que é como um tapa na cara de quem a xingou.”

O copo segue escorrendo. Aroldo de repente passa a notar o círculo de água que se formou na mesa, passa a notar com afinco demais para estar em perfeita consciência. Não está. Sua visão nubla, as mãos adormecem. Aroldo é cardiologista – ele sabe: vai ter uma parada cardíaca. Começa a chorar aos céus: “merda, vou morrer. Não tem médico nenhum aqui em volta. Que merda. Porque não é todo mundo médico? É a profissão mais importante, a coisa mais importante. Se todo mundo fosse médico eu não morria – ninguém nunca morria…”

Quando acorda, Aroldo está num lugar muito diferente. Não morreu. E todos a sua volta são médicos. Logo haviam lhe socorrido, todos prontos a efetuar métodos de ressuscitação, discutir o caso, levar até a clínica da esquina, uma das oito clínicas da mesma quadra. Depois de algumas horas de alegria, ele percebe outra coisa: o silêncio. No começo, relaxante. Depois, percebe que não há mais músicos. Os ouvidos doem de silêncio. Ao longo do imenso dia percebe finalmente que o único jeito de não haver mais músicos é não havendo mais a Música.

Sim, Aroldo está vivo. Mas os pássaros não cantam: gritam num uníssono concreto; a chuva cai como um só bloco d’água sem ritmo ou notas; o vento corre entre as esquinas sem uivar uma vez sequer, apenas zanzando em transparência homogênea.

Assustado, Aroldo volta para a casa da sua mãe. Ela o consola, dizendo que vai fazer um chá, como sempre fez. A água ferve em silêncio, a chaleira não se anuncia. Sem aquele assobio da chaleira, Aroldo não sente o conforto que sentia no passado. Tenta dormir. O silêncio dói. Aroldo pensa: pelo menos estou vivo. Curva a cabeça em direção ao próprio peito e faz força pra ouvir seu coração. Mas não ouve. Não ouve um só retumbar dos ventrículos, nem uma semicolcheia nos átrios, nenhum sustenido da reflexão pericárdia, ou mesmo um trinado no ramo circunflexo.

Um mundo de médicos, sem música. Sim, Aroldo está vivo. Mas não mais o pode perceber.