era uma vez, num mundo onde não há salário nem aluguel

Material Sintético

Tudo recomeçou após um dezembro brasileiro em cidade litorânea. Todo dezembro era assim — o ar ficava mais denso de umidade e expectativa, o sol gritava e as pessoas gritavam junto, os carros já buzinavam sem ajuda da mão humana, em inércia frenética. Pairava nos dias a sensação de fim do mundo iminente que só terminaria depois do carnaval, e assim era ano após ano. Todo fim de ano era o fim do mundo, mas na quarta-feira de cinzas, para desespero de todos, não havia acabado de fato e seguia idêntico até o próximo dezembro. Desta vez, no entanto, a euforia foi maior. As festas, o trânsito, o álcool, o suor, a carência, a música alta dos vizinhos em dissonância, a falta de espaço nas ruas, nas calçadas, no meio-fio; a falta de espaço nos pulmões, na praia, no mar, dentro dos biquínis; a histeria coletiva naquela ilha foi tão grande que a ilha implodiu. Tudo ficou deserto, um chão de concreto seco que fora amalgamado com purpurina, lágrimas, e areia misturada com protetor solar.

E após alguns dias recomeçou — como é o destino das coisas que terminam. Agora, que não existe mais salário nem aluguel, funciona assim: A aeromoça escolhe ser aeromoça só porque quer se sentir encapsulada a cima de todos os problemas da terra; o açougueiro escolhe ser açougueiro pra meditar enquanto põe as mãos no ciclo da vida (e na cadeia alimentar); a esteticista escolhe ser esteticista porque secretamente quer fazer o que pode pra limpar a humanidade (poros adentro), e tem prazer em extrair o que extrai; o professor escolhe ser professor porque não quer morrer sem passar adiante o que sabe das vidas que vieram antes; o servente de pedreiro escolhe construir prédios porque isso sim é que é deixar sua marca no mundo; o técnico de plataforma de extração de petróleo escolhe ser técnico de plataforma de extração de petróleo por motivos bem parecidos aos da esteticista. Só por isso.