chegou numa garrafinha no mar da Bahia:

Material Sintético

“Revisão bibliográfica
Duzentos anos atrás, lembremos, o russo Mikhail Bakhtin disse que estar fora de uma determinada cultura é o melhor jeito de compreendê-la bem (1970). No mesmo século 20, o português José Saramago colocou nas palavras dum personagem navegador que ‘se não sais de ti, não chegas a saber quem és’. E alguns anos antes o gaúcho Erico Verissimo comentou que, quando nos Estados Unidos, sentia que a saudade era uma lente de aumento para seu próprio país.

Algumas décadas depois, já no início do século 21, viveu-se no mundo inteiro a efervescência de ver o outro. As chamadas ‘redes sociais’ da Inter-Nete permitiam que o privado fosse público, e que todos pudessem ver, de fora, o que o outro mal-e-mal elaborava por dentro. Mais que isso, o próprio indivíduo podia exteriorizar-se e então tornar a ver-se aos olhos dos de fora. Até os anos 2060, historiadores acreditaram que as medidas tomadas pelos governos no sentido de controlar o uso do mundo virtual até sua extinção foram essenciais para proteger as sociedades da completa aniquilação das relações humanas presenciais.

Ao longo dos últimos anos, entretanto, releituras e recentes achados documentais mostram-nos que aqueles escritores da metade do século 20, que falavam da chamada ‘alteridade’, estavam profetizando o fenômeno supracitado que viria a tomar conta do início do século seguinte. Venho sugerir, no presente projeto de pesquisa, que se entenda tal fenômeno inter-nético como uma revolução cultural. Este conceito tornou-se obsoleto para representar eventos atuais do nosso século 22 (onde vivemos a era da homogeneidade). Mas deve voltar a ser usado, acredito, no estudo das relações pessoais/virtuais abstratas do iníco do século passado, já que foi um campo que sofreu profundas cisões em curtos espaços de tempo e veio a sucumbir por poderes totalitários. “