saudade

Material Sintético

Após doze anos morando em Pensacola, Flórida, Carla volta para Saco dos Limões, Florianópolis. Voltou porque não passava nunca a sensação de deslocamento. Sentia todos os dias a mesmíssima agonia de sutil desconforto, aquele mesmo que sentira na primeira vez dormindo na casa da amiguinha aos seis anos de idade. Carla o sabia de cor — é metálico e se aloja na região do externo. Nem era segredo que Carla se sentia assim nos Estados Unidos: sua colega de trabalho colombiana a chamava afetuosamente “deslocarla”. Mas a sensação física de não se sentir em casa era algo tão sutil que parecia fácil suportar, e o tempo passou. De repente, no intervalo do almoço, Carla resolveu que se doze anos morando num lugar não a faziam se sentir em casa, então nunca se sentiria.

Carla decidiu então que não valia a pena aceitar mais um desconforto, ainda por cima evitável, entre tantos os desconfortos inevitáveis da vida.

Pois bem, de volta à terra natal a sensação não passou. Porque nada — nada — estava igual. Não sobrou o mercadinho do bairro com a televisão ligada na novela, nem o restaurante de comida caseira com aroma de óleo vegetal, nem a academia bufando eufórica na pressa de verão. Não sobraram sequer as ruas de Carla, agora submersas em viadutos e elevados que terminavam no ar abruptamente. Ela também não podia contar com a Natureza: as dunas haviam se movido; os saguis, desistido; as corujas, emigrado; e, casa por casa, todas mudado de cor.

Mas eis que nesse dia vem o alívio de Carla. É nessa manhã de um raro sol de setembro que ela acorda ao som profundamente familiar. O som que é no início parte do sonho que ela sonha vai se tornando mais forte até escapar do etéreo mental, chegando à rua, real. Neste instante Carla tem o coração finalmente envolvido pelo calor de algodão que só o verdadeiro lar proporciona, e ela sorri com os olhos ao reconhecer na alma a gloriosa estridência imutável: é a música do caminhão de gás.