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	<title>Suíte para Graviola</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Aug 2010 03:55:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Sintético]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/29-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>O cronômetro em frente ao terminal de ônibus contava dez segundos para que os pedestres começassem a atravessar a rua na direção da praça, com a fúria de uma manada de antílopes indo pagar contas.]]></description>
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    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/29-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p style="text-align: justify;">Levantou-se do meio-fio, agarrou a própria cintura com força, arranhando a costura do vestido, e olhou fumegante para o horizonte que em seus olhos se mostrava turvo.</p>
<p style="text-align: justify;">O cronômetro em frente ao terminal de ônibus contava dez segundos para que os pedestres começassem a atravessar a rua na direção da praça, com a fúria de uma manada de antílopes indo pagar contas. Ela tinha 10 segundos para responder, antes que a massa humana os atropelasse.</p>
<p style="text-align: justify;">A fonte da praça central fervia ao seu semblanete enevoado. Ela contou até três, voltou-se para o seu amado inquisidor com olhos molhados de gana e um corte recém-mordido de súbita certeza no lábio inferior, esbarrou em um passante suado e sem camisa que já atravessava a rua antes que o sinal permitisse e disse, rouca de segurança: tá bom, eu aceito. Naquele instante, ela sentia que o mundo inteiro sabia do que acontecia, anunciava aos cantos do mundo e explodia em surpresa: <em>uma menina lá na América do Sul vai casar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Não sabia ela que de fato a Imprensa evoluira de tal forma que no instante em que ela dizia tá bom, eu aceito, as manchetes já se formavam. Os leitores, que também evoluiram, já leram a manchete cinco minutos depois de ela dizer tá bom, eu aceito, e os padres do mundo começam agora a desempoeirar os sermões de casamento de seus antecessores antigos, e mais de um já manda sua melhor batina para ser lavada a seco.</p>
<p style="text-align: justify;">O clima também foi otimizado: na semana seguinte já é inverno; e neva. E sobre a tela branca do horizonte a batalha entre padres de várias nacionalidades será sangrenta, naquela mesma praça central de Florianópolis, ao decidirem quem conduzirá a cerimônia extinta há quase um século.</p>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 03:02:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Sintético]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="http://www.suiteparagraviola.com/wp-content/uploads/2010/07/33-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>No início do século 21 aprendeu-se, verdadeiramente, a tirar fotos terríveis. Pesquisas estimam que, em 2010, em quase todas as culturas tirava-se aproximadamente 453 fotos terríveis a cada evento social imemorável.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="http://www.suiteparagraviola.com/wp-content/uploads/2010/07/33-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p style="text-align: justify;">Houve o tempo em que tirar a foto de alguém  era evento raro e importante. Quem falava, parava de falar; quem mastigava, engolia; alguns paravam até de respirar dentro das anáguas, dos espartilhos, dos coletes. Era um evento crucial e definitivo, esse de congelar o tempo. Paráva-se diante do movimento preciso que estava prestes a acontecer: aquele objeto vai abrir, permitir que a luz ilumine o filme tão sensível, e depois vai se fechar até segunda ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">Já os nenéns, com foto ou sem foto, são criaturas de outra sorte. Aleatórios, não param de falar, nem de mastigar. Nenéns acontecem, fluidos e sem horário definido pra receber o sol. Desde que foram, sensíveis, dados à luz, até anos depois, nenéns têm muito o que enquadrar no seu foco e nem um segundo a esperar — embora sejam de nós aqueles que mais tempo têm pela frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2010, pouco parava para ser fotografado. As pessoas de todas as idades mastigavam, faziam careta, e às vezes até escondiam-se da câmera, que levava um bolo descarado. Não tem problema: a foto ruim sai fácil do digital, não custa dinheiro nem tempo, e nem gasta o tecido da História — dele se apaga antes mesmo de pensar em fixar-se. No início do século 21 aprendeu-se, verdadeiramente, a tirar fotos terríveis. Pesquisas estimam que, em 2010, em quase todas as culturas tirava-se aproximadamente 453 fotos terríveis a cada evento social imemorável.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi num inverno desse mesmo 2010, entretanto, que Bernardo, sujeito de 5 meses de vida, daquela classe dos nenéns, que não param, e dos mesmos humanos inquietos do início do século 21, fez o impensável. Ele, que não sabia ainda o que era luz nem câmera (só sabia ação), e que estava mais longe ainda de saber o que era passado e futuro, História e Memória, percebeu, na hora do click, que seu pai estava parando o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">À sua volta todos se mexiam, riam, pediam mais uma. Mas Bernardo, nesse dia desse inverno, ficou parado. Como seus antepassados ficariam. Ele que antes mastigava, agora engoliu. Se um segundo antes falava suas palavras coloridas, agora parou para ver a luz passar pela lente.</p>
<p style="text-align: justify;">E arregalou os olhos diante do milagre.</p>
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		<title></title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 13:15:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Sintético]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/32-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>Serestor entende inglês. Os turistas que passam por Serestor não sabem que ele entende inglês.  E que ele lembra de uma professora da infância, já sem rosto, falando que to-be é ao mesmo tempo ser e estar. Então, quando volta e meia alguém de origem anglófona vira aquela esquina e diz  baixinho, olhando de canto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/32-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p>Serestor entende inglês.<span id="more-824"></span></p>
<p>Os turistas que passam por Serestor não sabem que ele entende inglês.  E que ele lembra de uma professora da infância, já sem rosto, falando que<em> to-be</em> é ao mesmo tempo ser e estar.</p>
<p>Então, quando volta e meia alguém de origem anglófona vira aquela esquina e diz  baixinho, olhando de canto de olho para o Serestor: &#8220;<em>is he happy?</em>&#8220;, Serestor fica na dúvida: especulam se estou feliz ou se sou feliz?</p>
<p>Por não haver tradução precisa, Serestor espera.  Mas já não espera por uma solução linguística. Nem seu coração, que pulsa em português, tem resposta para tamanha pergunta.</p>
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		<title>Corredor (2)</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Oct 2009 11:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minimercado e Açougue]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/30-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>Camila estudava ciências contábeis com obstinação equina e vinha de uma dinastia de leitores de dicionário. Hoje aprendera uma nova palavra e entrava no açougue decidida a usá-la. Pegou Miguel pela mão com pressa de agora ou nunca. Puxou o açougueiro até o ponto de ônibus, correndo, trotando, pararam. Esperaram por 12 minutos, ela batendo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/30-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p>Camila estudava ciências contábeis com obstinação equina e vinha de uma dinastia de leitores de dicionário. Hoje aprendera uma nova palavra e entrava no açougue decidida a usá-la.<span id="more-806"></span></p>
<p>Pegou Miguel pela mão com pressa de agora ou nunca. Puxou o açougueiro até o ponto de ônibus, correndo, trotando, pararam. Esperaram por 12 minutos, ela batendo freneticamente suas solas de ferro no chão. Quando o ônibus chegou, Camila puxou escada a cima seu próprio corpo e o do Miguel, com força trapezista de quem tem certeza de alguma coisa. Miguel nao fez perguntas, porque o óbvio seria fazê-las.</p>
<p>—Viu? — Inaugurou Camila com a voz tremida pelo ônibus que vai se despedaçando na velocidade. E disse o que tinha vindo dizer: — Tu és <strong>inverossímil</strong>.<br />
Ao dizer isso, olhou para ele com olhar de ter descoberto a resposta para tudo, e que agora era só resolverem esse pequeno problema de narrativa e construção de personagem que poderiam ser felizes para sempre.</p>
<p>Pegou na outra mão dele, apressada para que descessem correndo, correndo, no terminal. Esperaram. 17 minutos. E vento encanado. De dentro do próximo ônibus, Miguel finalmente reconheceu o prédio Manchester Park, o Princeton, o Liberty Park, a Padaria Super Pão. Que agora tinha subtítulo pontuado: “padaria. confeitaria. cafeteria.” Miguel estava chegando no bairro do qual fugira, e que já tinha mudado e desmudado de água pra gin e tônica pra disk entulhos e de volta. Antes de aprender a andar, foi essa rua que ele aprendeu ser o Mundo, e ser o Brasil, assim que lhe ensinaram que era brasileiro. Aqueles ali na calçada eram os au-aus. Que as moças pintavam de rosa e verde-limão. Lá na frente, o meio-fio de 10 centímetros do qual tinha caído e quebrado a perna. Depois disso fizeram uma ciclovia, agora  era um canteiro de flores e amanhã seriam 7 lojas de 1,99. Olhando em volta a terra que o gerara, Miguel então fez que sim, concordando com a descoberta de Camila.</p>
<p>— Faz sentido.</p>
<p>Botou na mão dela o pacote de biscoitos Bela Vista que vinha carregando durante todo o trajeto e entrou no ônibus que inacreditavelmente parou ali no instante em que precisava. Este ônibus nunca chegou a terminal nenhum.</p>
<p>Camila suspira com certo alívio. É mais fácil que ele simplesmente não exista, mesmo. Enquando mastiga, lê no rótulo que os Biscoitos Bela Vista são distribuídos em Florianópolis, República de Eldorado, Oz, Havana e Macondo. Lê a data de validade: imperecível.</p>
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		<title>Corredor (1)</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 11:10:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minimercado e Açougue]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/31-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>ele agora fazia parte, era como tudo que havia naquelas prateleiras de papel contact com estampa de granito.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/09/31-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p>No dia seguinte chegou um carregamento novo de biscoitos Bela Vista. Pelo resto do mês, Miguel veria da janela de plástico do açougue as pessoas dizendo “Ah, acho que vai esse, mesmo” ao botar um pacote no balcão do caixa. Os ombros da Letícia responderiam: “pra mim não faz a menor diferença”, enquanto a boca diria &#8220;é 75 centavos&#8221;, e a pessoa não hesitaria mais.</p>
<p>Miguel ajudou a tirar as caixas do caminhão — caixas que ela abriria. Pareceram leves. A leveza de uma molécula que se sustenta entre infindáveis outras em um mesmo organismo. Depois da noite vazia que ele passara sem querer sair do minimercado, esquecido do próprio conceito de sair de minimercados, Miguel, Letícia e o Minimercado eram um organismo.</p>
<p>Olhando Miguel carregar as caixas no inverno da porta dos fundos, Letícia sentiu que ele agora fazia parte; era como tudo que havia naquelas prateleiras de papel contact com estampa de granito. Ele tinha olhos de corante amarelo crepúsculo, voz de açúcar invertido, humor de acidulante ácido cítrico, acabamentos de gordura vegetal hidrogenada, aroma artificial idêntico ao natural de caramelo  e agora, ela decidira, também estabilizante lecitina de soja (INS332). Tudo estava em paz.</p>
<p>Para Miguel, esse era o primeiro dia em que não se perguntava porque é que fizera alguma coisa. Havia algo de tão sem-motivo em passar a noite a observar mercadorias de minimercado que ele sabia que não precisava se perguntar, era um aconchegante beco sem saída.</p>
<p>E sem saída avistou a ex-namorada Camila lá fora. Foi tomado pelo desconfortável suor frio costumeiro de vê-la, que não sentia há um mês. Ela vinha do outro lado da rua em direção ao minimercado, séria e ainda sem encontrá-lo. Encontrou um apenas-conhecido no meio da rua. Deu-lhe um beijo e um abraço ao construir um sorriso apenas-simpático. Despediu-se e seguiu andando. Miguel a acompanhou com os olhos. Quando que ela desfaria o sorriso que inventou no cumprimento? Acompanhou, acompanhou, acompanhou, ela não o desfez — sorriu o mesmo sorriso para a Letícia ao entrar no minimercado: emendou sorrisos. Miguel não pode evitar a sensação de que emendar sorrisos era um um ato um tanto adúltero.</p>
<p>Letícia apontou na direção dos fundos, onde estava Miguel, e quando Camila se aproximou ele não teve tempo de se adaptar: segurava, inevitável e firmemente entre cada dedo, como garras retráteis de titânio de um personagem mil decibéis mais passivo, pacotes de biscoitos Bela Vista com recheio cremoso sabor morango/gajetitas rellenas sabor frutilla-fresa.</p>
<p><!-- .post --></p>
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		<title></title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 09:16:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Sintético]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/28-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>A incrível história de Florida Blanca. Que era, antes de mais nada, um homem. Um homem nobre que nascera no século 18 com olhar anfíbio e envergadura de recém-nascido. Que seria para sempre lembrado — em tópicos a pincel atômico nos quadros brancos do final das aulas de história — não como o ministro da fazenda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/28-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p>A incrível história de Florida Blanca. Que era, antes de mais nada, um homem.<span id="more-791"></span> Um homem nobre que nascera no século 18 com olhar anfíbio e envergadura de recém-nascido. Que seria para sempre lembrado — em tópicos a pincel atômico nos quadros brancos do final das aulas de história — não como o ministro da fazenda da Espanha Bourbônica que reformou as taxas tributárias, nem como aquele que tentou extinguir da América os Jesuítas.</p>
<p>Seria Florida Blanca, aquele que <em>manteve as políticas implementadas pelos dois primeiros ministros.<br />
</em></p>
<p>Assim, Florida Blanca não via problema em se relacionar com a grama. Nem com a sensação de calças molhadas que geralmente seguem o deitar na grama. Até porque, se dependesse dele, a manufatura de calças ainda não estava em ascensão.</p>
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		<title>Santuário e outros demônios</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Aug 2009 09:09:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minimercado e Açougue]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/27-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>O Miguel-criança costuma morder ferozmente a lisura salgada das pipocas não-estouradas, e depois cada grão de sal, ao ver a mãe cigana do Quasimodo correr com o neném no colo fugindo do trote pesado do cavalo que a persegue pelas ruelas de longe, até que grita a alma às portas da igreja pedindo “santuário”. Toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/27-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p><span id="more-774"></span>O Miguel-criança costuma morder ferozmente a lisura salgada das pipocas não-estouradas, e depois cada grão de sal, ao ver a mãe cigana do Quasimodo correr com o neném no colo fugindo do trote pesado do cavalo que a persegue pelas ruelas de longe, até que grita a alma às portas da igreja pedindo “santuário”. Toda vez que isso acontece, o Miguel se sente filho do homem que faz desenhos animados para crianças roerem pipocas até as gengivas.</p>
<p>De volta ao Brasil, o Miguel-criança pediu um trenzinho e ganhou um carro, e por isso jamais perdoará seu pai. O trem do vizinho quase não descarrilha, e anda bonito e por muito tempo com um empurrão. Os carrinhos não têm rua direito, e tem gente que gosta, mas o Miguel, não. E não é menos menino por causa disso. A mãe que disse. Não é, não é, não é. Se não vão mais falar com ele por um milhão vezes trezentos mil e quarenta quinhentos de bilhões de anos, ele não fala por um milhão de mil bilhões e cinquenta quinhentos vezes&#8230;infinito.</p>
<p>Agora o Miguel-gente-grande é encarado pelo Mickey da camiseta do menino à sua frente, enquanto  sente a tranquilidade do medalhão de filé mignon através das luvas plásticas. De repente se revira dentro dele uma paz inquietante por estar ali e agora, e quando diz tchau, volte sempre, e o dono do minimercado diz acho que por hoje é isso, Miguel, vou fechar, o Miguel diz deixa que eu fecho, e não fecha: vai ficando.</p>
<p>Primeiro só no açougue, com as ossadas que vão dormir ali sozinhas. Rápidos quarenta minutos depois uma brisa das que surgem em locais fechados balança os bovinos. O Miguel então passa para o corredor em frente, e assiste ao freezer dos leites de saquinho por pouco não vencidos e ainda esperançosos pelo dia seguinte, em um tremer constante da brisa das que vêm da tomada.</p>
<p>Chegando ao balcão das cestas vazias saudosas de pão, encontra no escuro a bagunçada franja da Letícia. E não vê, por trás do cabelo, os olhos que jogam um companheirismo violento na sua direção — agora ela não é a única.</p>
<p>Inexistentes 8 horas depois, levantam o portão e dão início ao dia daquela rua.</p>
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		<title>Abelhas, Baleias e Balas Alheias</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 11:06:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minimercado e Açougue]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/26-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>Vendeu 32 limões coloridos, 7 vidros de mel já cristalizado e espantosos 5 gengibres.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/08/26-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p style="text-align: justify;">Helena, a mãe inventada de Letícia, achava que filho dela precisava de três coisas — ela costumava achar as coisas em itens, porque era professora: 1) Reparar em eventos como o solavanco da troca de marchas do ônibus ou as cócegas nos dentes ao fazer xixi. 2) Tentar traduzir qualquer coisa dessas que são do mundo, seja em cor, traço, número, nota, gesto ou no mínimo palavra, vai. 3) Saber que se conseguir isso, já valeu a pena.</p>
<p style="text-align: justify;">A Letícia acordou e tentou em vão prender a franja preta e lisa que vinha passando a vida inteira em estado de quase alcançar atrás da orelha. Se olhou no espelho, do banheiro de cerâmicas e plásticos cor de caramelo, por tantos minutos que já não entendia mais aquele rosto como o seu. Sentiu vertigem familiar.</p>
<p style="text-align: justify;">— <em>Leitícia</em>!</p>
<p style="text-align: justify;">O pai queria entrar. Ela podia vê-lo através da porta de madeira, até através do azulejo verde musgo com desenho de planta não-identificada. Sabia exatamente com que cara e camiseta ele acordava.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a Letícia naquele dia ia dar um jeito de tirar de dentro da cabeça reclusa alguma tradução de mundo, por Helena. Voltou a olhar pro o espelho, sussurrando:</p>
<p style="text-align: justify;">— Ia, sim.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo do expediente passaram no seu balcão 9 caixas daquele sucrilho da promoção do dia, olhos nos olhos do elefante marrom mergulhado no leite. Vendeu também 6 calendários de Jesus Cristo com tulipas e frases salva-vidas, 32 limões coloridos, 7 vidros de mel já cristalizado e espantosos 5 gengibres feios e mágicos que nunca mais haviam sido comprados, desde a última grande e glamorosa Epidemia.</p>
<p style="text-align: justify;"><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument> <w:View>Normal</w:View> <w:Zoom>0</w:Zoom> <w:HyphenationZone>21</w:HyphenationZone> <w:PunctuationKerning /> <w:ValidateAgainstSchemas /> <w:SaveIfXMLInvalid>false</w:SaveIfXMLInvalid> <w:IgnoreMixedContent>false</w:IgnoreMixedContent> <w:AlwaysShowPlaceholderText>false</w:AlwaysShowPlaceholderText> <w:Compatibility> <w:BreakWrappedTables /> <w:SnapToGridInCell /> <w:WrapTextWithPunct /> <w:UseAsianBreakRules /> <w:DontGrowAutofit /> </w:Compatibility> <w:BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</w:BrowserLevel> </w:WordDocument> </xml><![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml> <w:LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"> </w:LatentStyles> </xml><![endif]--> <!--[if gte mso 10]><br />
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<p style="text-align: justify;">Na volta do trabalho, pegou o ônibus com o Miguel e suportou a visão daquela bala sete-belo desembrulhada que se aconchegava entre o banco e a parede. Aproveitou que o ônibus gritava e ela não tinha nenhum outro som de mundo pra escutar, e então podia falar.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando passavam pela esquina azul, apontou pro enquadramento da janela e pensou em voz alta pra ele:</p>
<p style="text-align: justify;">— Olha ali; humanos num aquário.</p>
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<p class="MsoNormal">nao</p>
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		<title></title>
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		<pubDate>Fri, 31 Jul 2009 15:25:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Material Sintético]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/07/25-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>“Olha, benzinho, cuidado com o seu resfriado; não pegue sereno, não tome gelado"]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/07/25-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p>Em 1950 disseram no Norte “Aquele que amo disse-me que precisa de mim. Por isso cuido de mim; olho meu caminho; e receio ser morta por uma só gota de chuva.”</p>
<p>Em 1950 disseram no Sul “Olha, benzinho, cuidado com o seu resfriado; não pegue sereno, não tome gelado; o gim é um veneno; cuidado, benzinho; não beba demais; se guarde para mim.”</p>
<p>Agora em 2050 não tem nenhuma das duas calotas polares, tem sol o ano todo e passagens aéreas a preço de amendoim.</p>
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		<title>Deslocamento</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 13:25:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>maria</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minimercado e Açougue]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/07/24-150x150.jpg" alt=""/>
    </p>O semblante de quem atravessou um terço de mundo em menos de 12 horas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <img style="float:right;margin:10px;" src="/wp-content/uploads/2009/07/24-150x150.jpg" alt=""/>
    </p><p style="text-align: justify;">Ela vinha bamba lá da esquina até o minimercado com o vento ora contra, ora a favor. Assim ziguezagueava de dar pena. De dentro do minimercado, Miguel e Letícia aguardavam sem expressão a primeira freguesa do dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Conseguiu chegar à entrada, com os poros duros do frio e as pernas duras da  intencional falta de carboidratos; os cabelos duros da água oxigenada e o semblante de quem atravessou um terço de mundo em menos de 12 horas. Apenas para descobrir que o Brasil tem, sim, inverno, e que minimercado não tem porta.</p>
<p style="text-align: justify;">Como havia andado cinco quadras esperando portas que bufam calor amendoado a tocar sininhos, ficou longos minutos estupefata na entrada larga do minimercado. Quando ela própria bufou <em>excuse me</em> e saiu, Miguel e Letícia nem chegaram a se entreolhar — Os fregueses mais assíduos eram os seres desnorteados às seis da manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">De volta ao quarto do hotel, depois do primeiro banho no hemisfério sul, Carmen resolveu se aconchegar na calmaria da lembrança do professor de geografia. Apaixonante e deportado vinte anos atrás, por ele Carmen tinha agora atravessado Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio. Viera procurá-lo sem chance nenhuma nesse gélido país tropical.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolveu também ignorar que um homem de inércia mórbida comia pipoca Bilu ao assistí-la da janela do prédio em frente.</p>
<p style="text-align: justify;">A cinco quadras dali Miguel ignorava tudo, cortando corações de galinha gelada.</p>
<p style="text-align: right;">
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